BARRETOS: Prefeitura institui Diploma Adão de Carvalho…

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Dentro das atividades do Mês da Consciência Negra, a Prefeitura de Barretos, através da Secretaria de Cultura, está instituindo o Diploma Adão de Carvalho. A partir do ano que vem, a comenda vai homenagear pessoas de vários segmentos da sociedade com destaque em trabalhos de valorização da cultura afro brasileira. A apresentação do diploma foi feita pela secretária municipal de Cultura, Karla Armani, durante evento comemorativo do Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, no Centro Cultural Osório Faleiros da Rocha – Teatro  Cine Barretos.

Os homenageados com o diploma serão escolhidos, a partir do ano que vem, em conjunto pela Secretaria da Cultura e pela Comissão Organizadora do Mês da Consciência Negra. Coube à secretária, em discurso no dia dedicado a Zumbi dos Palmares, lembrar da importância do personagem que dá nome ao diploma. “A Secretaria Municipal de Cultura tem a honra de trazer à tona outro personagem negro, de igual valor de luta e resistência, porém da realidade local; que viveu cá, na nossa cidade, na primeira metade do século XX”, informou.

Como lembrou Karla Armani, Adão de Carvalho foi um homem negro, baiano, que viveu em Barretos. Alfabetizou-se depois dos 40 anos, tornou-se professor e foi o fundador da escola Instituto Amor às Letras. Também era violinista (seu violino é acervo do Museu Ruy Menezes) e poeta. Morreu em 1962, aos 70 anos, quando cursava Direito em Bauru.

 

 

DIPLOMA ADÃO DE CARVALHO

 

Por Karla Oliveira. Armani Medeiros – Secretária Municipal de Cultura

 

Neste 20 de novembro muito ainda há do que se refletir em relação à questão racial e sobre às condições sociais da classe de afrodescendentes no Brasil. Refletir na data de hoje, no mês de novembro, significa sobretudo não ir ao encontro das idéias de que o Brasil é um país de democracia racial. Datas como esta são importantes para questionarmos nossa própria realidade e revivermos questões importantes do passado, da história e da identidade do nosso país e da nossa cidade.

São em datas como essa que entramos em contato com fatos e personagens da história do Brasil que fazem menção à cultura e história afro brasileira e africana. Fazemos ressurgir importantes personagens, como Zumbi dos Palmares; ao qual, pela sua luta, tem a data de sua morte como o marco da Consciência Negra. Em 20 de novembro de 1695 ele morreu, e em 20 de novembro de 2013 cá estamos nós refletindo sobre sua luta, sobre a resistência de sua classe, e entregando um diploma com seu nome às pessoas que no Brasil de hoje se manifestam à favor da promoção da igualdade racial.

Inspirando-se nisso, a Secretaria Municipal de Cultura tem a honra de trazer à tona outro personagem negro, de igual valor de luta e resistência, porém da realidade local; que viveu cá, na nossa cidade na primeira metade do século XX. Chamava-se Adão de Carvalho.

Há ainda na cidade pessoas de mais idade que se lembram vagamente desta figura. Dificilmente alguém que o conheceu de fato. Por conta do seu período de vida ser um tanto distante de nosso presente. Ele nasceu pelos idos de 1892 e faleceu em 1962, aos 70 anos. Sua história de vida é fascinante, acompanhem uma síntese dela.

Ele era natural da cidade de Barra, na Bahia. Aos 21 anos era analfabeto – como muitos deste país naquela época; mas como sua vontade de estudar era tamanha, resolveu se alfabetizar, mesmo que para isso tivesse que conviver com os meninos pequenos já em Barretos. Alfabetizou-se completamente depois de seus 40 anos. Fez então o curso primário, secundário e depois o normal. Formando-se professor, passou a exercer esta profissão e fundou em Barretos uma escola particular; o Instituto Amor às Letras; que funcionava na rua 22 e tempos mais tarde se municipalizou. Foi também pastor protestante, realizando importantes estudos de teologia.

Conta Ruy Menezes, antigo jornalista e pesquisador em Barretos, que Adão era tão aplicado nos estudos que, para comprar livros, ele preferia economizar até mesmo nos alimentos. Após se aposentar do funcionalismo público, nos idos de seus 60 e poucos anos, o professor Adão de Carvalho iniciou graduação em Direito na Faculdade de Direito de Bauru. Foi nesta época, no auge de seus estudos e sacrifícios, que Adão de Carvalho faleceu – aos 70 anos de idade, na cidade de Bauru.

Mesmo com uma vida dedicada aos estudos e à intelectualidade, Adão foi mais além na Cultura. Era um exímio poeta e um imortal violinista. Há quem se lembre de passar defronte sua escola e lá escutar as notas de seu violino, fosse de manhã, tarde ou noite. Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, ainda podemos reverenciar sua obra nas páginas dos jornais antigos do Museu Ruy Menezes e em uma de suas vitrines que tem como principal peça: o violino do professor Adão.

Em pesquisa feita nos jornais do Museu, por estagiários de História, verificamos que o professor Adão de Carvalho e seus amigos e correligionários que eram negros sofreram com o preconceito racial da época. Em 1947, uma reportagem do jornal O Correio de Barretos relatou situações de discriminação racial sofrida por ele e o colega, doutor Geremaro Manhães; um médico negro e muito conhecido na época – outro merecedor de homenagens. Porém, ao mesmo tempo em que isso acontecia, também era visível a luta pela igualdade racial do professor Adão de Carvalho. Afinal, no mesmo ano, outro jornal ressalta a comemoração do centenário de Castro Alves promovida pela escola do professor Adão; inclusive tendo sido ele o autor de um certo Hino a Castro Alves. Este, o famoso poeta dos escravos; abolicionista convicto.

O Cemitério Municipal também abriga recordações do professor Adão, como o túmulo em que foi enterrado. Túmulo este que recentemente recebeu o corpo de sua filha, que morreu neste ano aos 100 anos de idade. Segundo os dados do Cemitério, o professor Adão era filho de Pio Antônio de Carvalho e Eva de Carvalho.

É por este motivo, por tantos caminhos trilhados no rumo da cultura local, por tamanho esforço, por tantos sacrifícios, pela brava resistência numa época de preconceito enraizado, que hoje a Secretaria Municipal de Cultura lança o Diploma Adão de Carvalho. Uma singela homenagem a este homem, a este bravo homem negro, que tanto lutou pela cultura, seja no ensino, nas palavras, na poesia ou na música.

Neste ano de 2013 lançamos o diploma como uma homenagem a seu próprio patrono, e a partir dos próximos anos seu nome se perpetuará neste mês de novembro homenageando pessoas de vários segmentos que durante o ano se destacarem em trabalhos pela promoção da igualdade racial e pela cultura afro brasileira e africana. Decisão está que será mediada pela Secretaria Municipal de Cultura e pela Comissão Organizadora do Mês da Consciência Negra.

Para fechar uma história tão bela e esta homenagem, finalizaremos esta apresentação com uma das poesias mais emocionantes do professor Adão de Carvalho. Diz assim:

A Mocidade

 

Quem quiser possuir a sabedoria

     E na vida ostentar conquista:

     Consulte a voz da ciência, noite e dia

     Do mal que surgir, contra o bem, resista!

 

 

 

Quando a luz do sol, vivida, irradia

     E a natureza nos alegra a vista

     Adornada de fina louçaria

     Lembra o gênio de um sábio, de um artista! 

 

Estudar os mistérios de um rochedo

     Para lhe desvendar todo o segredo

     Descortinar a terra, o mar e os céus!

 

Relutar a favor da humanidade,

     Da justiça, da Lei, da Verdade:

     Como vive lutanto o próprio Deus!


 

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